ANÁLISE | MOUSE: P.I. For Hire celebra com maestria os clássicos do gênero

De tempos em tempos, somos agraciados com jogos que nos pegam de surpresa em todos os sentidos, positivamente falando. Apesar do foco da indústria ser na apresentação de novos jogos AAA de orçamentos enormes, nos indies estão a verdadeira fagulha de criatividade que cativa incontáveis jogadores nos dias de hoje. MOUSE: P.I. For Hire, felizmente é o mais recente representante deste seleto grupo.

Desenvolvido pela Fumi Games e publicado pela Playside Studios Ltd, está disponível para PC, Nintendo Switch 2, PS5 e Xbox Series.

Trata-se de um jogo de tiro em primeira pessoa (FPS) diferente da maioria do que temos atualmente, pois mistura técnicas gráficas modernas com um visual noir (em preto e branco) que consegue ser atual e retrô ao mesmo tempo.

Todavia, antes de começarmos com os detalhes adicionais, confiram o PC usado neste review:

Componente Especificação
Processador (CPU) AMD Ryzen 7 9800X3D
Memória (RAM) 32 GB DDR5 (6000 MHz)
Placa de Vídeo (GPU) NVIDIA GeForce RTX 5070 Ti
Armazenamento (SSD) SSD 2 TB PCIe Gen 4
Sistema Operacional (SO) Windows 11 Pro

A seguir, vejam o trailer de apresentação do game, para entender melhor do que se trata, caso estejam por fora desta novidade:

O charme do passado em todo seu resplendor

Admito que sou um daqueles que só conheceram o jogo depois de lançar. Não era um título que estava no meu radar antes; contudo, pouco depois de concluir minha análise de PRAGMATA, recebi algumas sugestões, tanto no fórum quanto nos comentários das minhas outras notícias, recomendando que eu checasse este game.

Para os usuários que recomendaram MOUSE: P.I. For Hire, meus sinceros agredecimentos. Este não é um título que recebemos da desenvolvedora; contudo, digo que valeu pagar os R$ 88,99 no Steam, sem sombras de dúvidas.

Posteriormente, pretendo comprar os pacotes adicionais também, mas ainda tenho um pouquinho de conteúdo adicional para aproveitar no game base (fora que nem lançaram o Story DLC #1, até o momento da publicação desta matéria).

Não estamos falando de um jogo curto, sendo estimado em durar entre 12 e 15 horas para zerar na dificuldade padrão, com exploração moderada, mas sem fazer 100%.

Caso esteja empenhado em extrair tudo o que o MOUSE tem para oferecer, pode colocar umas 24 horas na balança. Pelo preço de lançamento, informado acima, esta é uma ótima duração. Nem muito longo e nem curto.

Portanto, para finalizar este segmento, adianto que, além de meter bala nos inimigos com armamentos divertidos e variados, o detetive privado Jack Pepper (que parece uma versão adulta do Mickey, mas é muito mais do que isso) também pode explorar os cenários com certa liberdade (apesar de menos do que eu gostaria).

O cínico roedor, que já foi um herói de guerra, pode colecionar cartões de beisebol, recortes de jornal, que dão um contexto mais aprofundado ao mundo do jogo (um dos principais charmes desta aventura), além de bonequinhos especiais e outros itens velhos conhecidos dos fãs do gênero.

MOUSE: P.I. For Hire é um jogo de criança? Nem de longe!

Um aviso para os desatentos (e que não se deram ao trabalho nem de assistir aos trailers com mais atenção): o jogo NÃO É para crianças.

Temos aqui um mundo com ratinhos cinícos e falantes, ok, mas a história tem violência gráfica (espere arrancar a cabeça de vilões com tiros bem dados), mistérios que envolvem assassinatos e mais.

O público-alvo deste game são adultos que cresceram assistindo desenhos clássicos, principalmente aqueles feitos entre a década de 30 e 50, e também para jogadores com mais de 25 anos de idade, porque temos algumas referências a jogos velhos conhecidos, como Resident Evil 2.

E, pouco depois que temos uma homenagem ao clássico da Capcom, o detetive come uma lata de espinafre e fica fortão, como no desenho Popeye!

Sério: é notável o carinho dos envolvidos com os materiais originais citados. Esta parte é um dos pontos fortes inegáveis, que ninguém pode reclamar.

De toda forma, tirando que temos roedores bonitinhos, eles estão envolvidos em histórias tensas e até macabras, logo, não tem nada aqui que pode ser recomendado para crianças.

Nos mínimos detalhes, até mesmo ao usar jornais de época, gráficos em preto e branco e colecionáveis que remetem à cultura pop antiga, como quadrinhos de época, tudo é feito de uma maneira muito bem-estruturada e adulta.

As aventuras de Jack Pepper em uma sociedade mórbida e que esconde a sua sujeira

Mesmo na versão localizada com extrema qualidade para português do Brasil (incrível como um jogo indie fez isso com tanta qualidade, mas um remake AAA da KOEI Tecmo, como Fatal Frame 2 Remake, não localizou para o nosso idioma), as brincadeiras envolvendo ratos e queijos são constantes:

Personagens e criaturas

Nome Referência
Jack Pepper O detetive protagonista. Referência ao queijo Pepper Jack.
Cornelius Stilton Político influente e ex-companheiro de guerra de Jack. Referência ao queijo azul Stilton.
Millie Curd Personagem secundária. “Curd” é a tradução de coalhada, o estágio inicial da produção de queijo.
Tammy Tumbler A mecânica talentosa que melhora as armas de Jack (liberando tiros secundários e mais poderosos).
John Brown Um musaranho (shrew) ex-contrabandista e dono do bar “Little & Big”.
Musaranhos Uma classe social de roedores que sofre com o tráfico e a exploração em Mouseburg.

Itens de consumo e crime

Termo Referência
Queijo Azul No jogo, é tratado como um narcótico pesado (similar à metanfetamina).
Fondue de Queijo Referência a bebidas alcoólicas.
Palitos de Queijo Funcionam como charutos no universo do jogo.
Cheeselegging Termo oficial para o contrabando de queijo (trocadilho com bootlegging).

Locais e missões oficiais

Local / Missão Referência
Ratópolis Nome em português para Mouseburg, a cidade principal na qual a trama regada a queijo acontece.
Cambozo de Água Salgada Nome oficial de um dos segredos / missões. Referência ao queijo Cambozola.
As Profundezas A área perigosa onde Jack investiga o tráfico de musaranhos no caso “Shrewd Shrews”.

Expressões e conquistas

Termo Referência
“Santo Queijo Provolone!” Frase de efeito característica de Jack Pepper.
A Faca e o Queijo Uma das conquistas/troféus oficiais na versão brasileira.
Repúblicato Nome oficial do partido político mencionado no jogo (Republicat).

Como poderíamos não gostar de um jogo feito com tanta atenção e afeto nos detalhes? Isso é o que falta em muitos jogos AAA dos dias de hoje: atenção e paixão genuína dos desenvolvedores.

Tanto na tradução em português quanto no material original, em inglês, dá para ver que não temos um amontoado de personagens com visual clássico jogados aos ventos. A aventura é muito bem pensada, com temas de mistério normalmente retratados em filmes da época.

E, sem muito spoilers, uma das premissas é justamente o tráfico de Musaranhos, usando membros da polícia (e violência polícial) como fachada. Partindo dos pressupostos que estamos falando de contrabando de seres vivos, dá para ter uma noção de como tudo é bastante interessante desde o começo.

Tudo é muito interessante, mas como funciona a jogabilidade?

Aqui é a parte que interessa mais os jogadores, afinal, não importa se tudo é feito com amor e atenção, se o JOGO não for prazeroso de JOGAR. Felizmente, apesar de não tentarem reinventar a roda neste departamento, fizeram o básico dos jogos de tiro com qualidade.

Aqui é um dos principais pontos fortes e pontos fracos do game. No geral, a estrutura funciona muito bem. Temos estas peças únicas, bizarras e experimentais, portanto, começaremos com os pontos positivos e com a variedade de armas:

Todas as armas de Mouse P.I For Hire

Nome da Arma Tipo / Função
Micer Pistola (arma inicial)
Espingarda (Boomstick) Escopeta de curta distância
Desvanecedor Arma de veneno/ácido experimental
James Gun Submetralhadora (estilo Tommy Gun e com o nome igual a de um famoso diretor de filmes)
Canhão Tonhão Lança-balas de canhão (explosivo)
Beijo e Queijo Escopeta de cano duplo
Cabeça de Pote Arma de energia (feixe)
Hellrazor Motosserra / Curto alcance
D-Namite Explosivo arremessável
Portable Freezer Arma de gelo (congelante)
X1 D-Ratificador Pistola de Raio (arma secreta)

Hordas de inimigos podem ficar repetitivas da metade para frente

Ao longo da aventura misteriosa, novas mecânicas vão sendo desbloqueadas, como barris que podem explodir ou congelar hordas de inimigos, um sistema de usar a própria cauda (multiuso) para girar e planar pelos cenários, e isso enquanto ativa em vários adversários e outros.

O problema (que não é nada muito grave, mas pode incomodar alguns) é que, pela duração do jogo ser mediana, as hordas inimigas podem sofrer com repetições constantes da metade para frente, com adversários que não variam tanto quanto poderiam, dada a quantidade deles que você enfrenta.

Outro aspecto é que estamos falando de um jogo que, em 90% do tempo, é frenético. Dedada no olho e gritaria. Temos inimigos derretendo até os ossos, perdendo suas cabeças, explodindo, etc. E isso em grupos cada vez mais desafiadores e crescentes.

De toda forma, temos menos tempo do que aparenta no início dedicado às explorações e para tarefas de um detetive, como consta o próprio nome do título.

E, para quem não entendeu a nuance do que estou falando, “P.I For Hire” é basicamente uma sigla para Private Investigator, ou simplesmente Detetive Particular em um a tradução livre.

Claro, nós obtemos pistas e colocamos em um quadro de provas no seu escritório, muito similar ao que foi usado em Alan Wake 2 recentemente (não que o jogo da Remedy tenha patenteado essa função, estou citando apenas um exemplo moderno).

Porém, sendo bem sincero, isso é feito de uma forma muito linear e direta. As provas são basicamente recompensas após você explodir hordas e hordas de ratões. No meu ponto de vista, seria mais equilibrado se, entre os grandes tiroteios (que são ótimos), tivessemos mais momentos de exploração.

Essas áreas com exploração liberada até existem, assim como itens secretos disponíveis, caso você saia da linha principal da missão; contudo, temos um desequilibrio entre momentos de tiroteios frenéticos e segmentos de exploração mais cadenciada.

Para encerrar esta etapa, cito dois momentos especiais, quando o assunto é jogabilidade: na exploração da cidade, que a gente controla o carro do detetive em uma maquete que representa a cidade que se desenrola a trama, e também os momentos que o veterano usa a sua cauda para desbloquear cofres:

A trilha sonora, assim como a dublagem, brilha em todos momentos

Se este título encontrou alguns probleminhas de cadenciamento em segmentos de gameplay, o mesmo NÃO PODE ser dito sobre o departamento de áudio.

Um grande exemplo é que o protagonista, Jack Pepper, é dublado por ninguém menos do que Troy Baker, a voz de Joel nos jogos The Last of US I e II.

As músicas e a dublagem são simplesmente incríveis. Você percebe a qualidade desde o primeiro momento em que o game inicia com uma canção muito charmosa.

Os jogos com orçamento limitado estão INCRÍVEIS ultimamente na parte sonora. Fazem inveja a jogos com verbas inúmeras vezes maiores.

Outro exemplo recente, quando o assunto é música, é o famoso e premiado Clair Obscur. MOUSE: P.I. For Hire, dentro das devidas proporções, será uma das experiências que lembrarei com carinho, principalmente quando eu recordar das canções e dos visuais carismáticos e únicos nos mínimos detalhes, como a lua de queijo:

Não tenho o que criticar aqui. É simplesmente perfeito e na medida certa, sem desequilibrios (como aconteceu como o gameplay e variedade de design dos inimigos). Recomendo que todos coloquem seus fones de ouvido e aproveitem sem pressa.

Desempenho no PC

Felizmente, tudo rodou sem problemas no meu PC, como é de se esperar. Mesmo que os gráficos não usem tecnologias de ponta o tempo inteiro, com alguns elementos 2D misturados em um mundo 3D de maneira muito criativa, acredito que tenha sido a escolha correta para um indie.

Uma aventura independente não deveria ter que se preocupar tanto com gráficos pesados e tecnologias caras, como captura de movimento (mocap) e outros, mas sim em liberar a criatividade do melhor jeito possível, e foi o que os desenvolvedores conquistaram com este título.

Em vários momentos, como nas imagens e vídeos que postei acima, você olha os gráficos e não consegue distinguir se é um desenho animado retrô ou um game, e este é um dos principais elogios que posso dar.

Na minha máquina, rodou com tudo no máximo, em 4K e DLSS 4 no modo qualidade. Normalmente, não usava nem 55% da minha GPU, portanto, creio que escalonará de forma correta em equipamentos mais humildes.

Opiniões finais sobre MOUSE: P.I. For Hire

Para finalizar esta análise, MOUSE: P.I. For Hire fica com a Medalha de Ouro, sendo nota 9, se colocarmos em formato númerico.

Entre todos os pontos positivos acima, a única coisa que impede esta aventura de se tornar totalmente lapidada é a falta de variedade de designs dos inimigos, assim como o excesso de hordas adversárias em detrimento de segmentos com mais exploração (e da atuação de Pepper como um detetive).

Algumas pessoas podem considerá-lo uma nota 8, o que ainda é uma excelente crítica, mas prefiro atribuir a Medalha de Ouro para honrar o empenho da equipe em criar tantos materiais únicos, sejam visuais ou sonoros, para esta aventura.

E, o melhor de tudo: como estamos falando de uma empreitada inicial dos desenvolvedores neste mundo de ratos (espero que não seja a última vez que dê as caras), tudo pode ser melhorado ainda mais em investidas futuras, que espero de coração que existam um dia.

Sim, a repetição de hordas de inimigos começa a torrar a paciência lá pelos momentos mais avançados, porém, tudo o que acontece em volta disso é feito com capricho. Por esse motivo não é um título nota 10, e acredito que 9 seja um resultado justo.

O carinho aqui é observado em todos os momentos: desde ocasiões de recargas das armas, com movimentos cômicos (como socando todas as balas de uma vez no tambor), itens estilizados para o visual do universo (com desenhos criativos) e mais.

Para finalizar, ressalto que, definitivamente, ainda mais custando menos de R$ 90 no lançamento (em todas as plataformas), é uma aventura que vale a pena ser aproveitada e patrocinada.

Mas, e aí? Qual é a sua opinião sobre este jogo? Compartilhe as suas opiniões e continue acompanhando o Adrenaline!

Prós

Gráficos estilizados com qualidade impressionante, mesclando diversas técnicas clássicas e modernas;

Jogabilidade rápida e funcional, com tiroteios repletos de elementos variados nas arenas, como barris com efeitos diversos;

Batalhas contra chefões interessantes, que precisam de estratégias únicas para serem superadas;

A trilha sonora é simplesmente espetacular, uma das melhores que tive o prazer de conferir recentemente;

Mundo extremamente detalhado e personalizado, com nomes e situações repletas de referências divertidas e inteligentes;

Tudo traduzido para português do Brasil (PT-BR) com a melhor qualidade possível;

Bem otimizado no PC, rodando com tudo no máximo sem engasgadas ou outros problemas adicionais;

Um dos jogos indies mais carismáticos e detalhados dos últimos meses. Merece toda a sua atenção.

Contras

Falta equilibrio entre momentos de ação e exploração a partir da metade para frente do jogo;

Design dos inimigos (principalmente os de hordas) começam a repetir cedo demais;

O jogo tem no nome “Detetive Particular”, mas é muito mais um game de tiro frenético;

Poderiam ter dado mais ênfase em exploração e resolução de mistérios (sem meter bala em tudo).

By Power Play Games

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