Recentemente, a China conquistou o título de supercomputador mais veloz do mundo com seu novo modelo, o LineShine, que estreou na primeira posição da lista TOP500 em junho de 2026. Com isso, a máquina superou o El Capitan, dos Estados Unidos, que ocupava a liderança desde o final de 2024.
Esse resultado não é uma afirmação isolada feita por Pequim. Ele foi aferido e validado pela lista TOP500, um ranking semestral que classifica os computadores mais potentes globalmente e que foi apresentado durante a conferência ISC em Hamburgo.
LineShine, a primeira colocada sem GPUs
O LineShine obteve impressionantes 2,198 exaflops no HPL (High Performance Linpack), que é o teste utilizado pelo TOP500. Isso equivale a aproximadamente 2,2 quintilhões de cálculos por segundo, alcançando cerca de 80% do pico teórico de 2,736 exaflops.
Uma característica notável desse sistema é sua arquitetura: ele se torna o primeiro da lista a ultrapassar os 2 exaflops utilizando exclusivamente CPUs, sem qualquer placa gráfica. A maioria dos supercomputadores avançados costuma depender de aceleradores gráficos para atingir tais resultados.
A nova máquina está localizada no Centro Nacional de Supercomputação em Shenzhen e foi desenvolvida pelo Shenzhen Cloud Computing Center. Além disso, ela também ocupa a liderança no ranking HPCG, que avalia cargas de trabalho mais próximas das aplicações reais, alcançando 22 petaflops.
Como foi construída a máquina chinesa
A tecnologia do LineShine é totalmente nacional: são cerca de 45 mil processadores LX2, cada um com 304 núcleos operando a 1,55 GHz, totalizando 13,79 milhões de núcleos. A base do sistema é baseada na plataforma LingKun desenvolvida na China.
A comunicação entre os componentes é realizada através da interconexão proprietária LingQi, que oferece alta velocidade e baixa latência. O sistema operacional utilizado é o Kylin, também desenvolvido na China. Importante destacar que não há nenhum componente ocidental presente na configuração do sistema.
A opção por utilizar CPUs tradicionais tem um fundo político. Em razão das restrições impostas pelos EUA sobre a venda de chips por empresas como a NVIDIA e as tarifas estabelecidas durante o governo Trump, a China optou por processadores fabricados nacionalmente e mais acessíveis para contornar essas limitações. Essa decisão traz uma mensagem clara para os Estados Unidos.
Esta é a primeira vez que um computador apenas com CPUs alcança o exascale
Jack Dongarra, cofundador do TOP500 e laureado com o Prêmio Turing
El Capitan recua para segunda posição
A máquina El Capitan, do Laboratório Nacional Lawrence Livermore nos EUA, ocupa agora a segunda posição com um desempenho de 1,809 exaflops. Assim sendo, o LineShine estabelece uma vantagem superior a 20% sobre seu predecessor.
A supermáquina americana combina APUs AMD Instinct MI300A que integram CPU e GPU em um único pacote e serve ao programa nuclear dos EUA. Apesar disso, os Estados Unidos continuam dominando a lista em termos de volume total, detendo três das cinco primeiras colocações.
No entanto, essa liderança chinesa vem acompanhada de um custo significativo em termos de eficiência energética: enquanto o LineShine consome 42,2 MW, o El Capitan apresenta um consumo em torno de 29,7 MW. Embora seja mais rápido, sua energia utilizada é consideravelmente maior.
A ressalva sobre inteligência artificial
<pApesar da conquista do título de mais rápido do mundo ser digna de destaque, há uma importante ressalva: embora o LineShine lidere no critério Linpack, ele não se posiciona como o supercomputador mais forte para aplicações de inteligência artificial.
Cargas computacionais voltadas à IA dependem fortemente de GPUs e cálculos com precisão mista. No benchmark HPL-MxP — focado exatamente nisso — o LineShine aparece apenas em quarto lugar, registrando 7,92 exaflops. O El Capitan ainda figura no topo dessa lista.
É relevante observar que grandes provedores de nuvem como Microsoft, Amazon e Google raramente apresentam seus sistemas ao TOP500. Muitos data centers dedicados à inteligência artificial não estão incluídos nas comparações mesmo sendo extremamente potentes.
Leia também:
- Lingshen: China aposta em supercomputador sem GPUs e atinge desempenho recorde de 2 exaflops
- AMD assegura primeiro e segundo lugares na classificação dos supercomputadores mais potentes do mundo
- Ironwood: chip para IA da Google supera desempenho do melhor supercomputador por 24 vezes
China retorna ao TOP500 após anos fora da lista
A vitória possui uma importância adicional quando se considera o contexto histórico. A China havia interrompido suas reportagens ao TOP500 anos atrás apesar da operação de supercomputadores exascale conhecidos como Sunway OceanLight e Tianhe-3. O LineShine representa o retorno do país ao ranking na primeira colocação imediatamente.
A conquista ganha ainda mais destaque ao analisarmos eventos recentes. Em abril deste ano, o mesmo centro em Shenzhen apresentou planos para desenvolver um sistema chamado Lingshen com metas audaciosas de alcançar 2 exaflops apenas com CPUs. Na ocasião, especialistas mostraram ceticismo devido à falta de benchmarks concretos — somente promessas foram feitas.
Duas meses depois daquela apresentação inicial resultaram em números auditados comprovando seu desempenho. Este feito marca a primeira vez desde o Sunway TaihuLight, em 2017, que um sistema chinês lidera a lista TOP500 — além disso, é inédito na história ter um supercomputador atingindo exascale sem utilizar GPUs.
Fontes: TOP500 e The Verge
