Que Machado de Assis é um dos nomes mais brilhantes da história da literatura, você já deve ter aprendido na escola. Por essa razão, é espantoso que até hoje alguma de suas obras recheadas de mistério não tenham sido utilizadas como base de adaptação para o mundo dos games.
A Investigação Póstuma, desenvolvido pelo estúdio brasileiro Mother Gaia Studio, e distribuído pela Critical Leap via Nuuvem, preenche essa lacuna. O título toma como base diversos personagens do universo machadiano para resolver o assassinato de Brás Cubas, do clássico livro Memórias Póstumas de Brás Cubas.
O game chega nesta terça-feira, 31 de março, em versão para PC, disponível na Steam e na Nuuvem, por um preço bastante acessível: apenas R$ 49,99. A convite da Critical Leap, tivemos a oportunidade de jogar antes do lançamento – e essas são as nossas impressões sobre o game.
A riqueza do universo de Machado de Assis
A Investigação Póstuma se passa no Rio de Janeiro do final da década de 1930. Você é um detetive particular que recebe uma carta misteriosa de ninguém menos que Brás Cubas, um dos homens mais influentes da sociedade carioca.
Porém, o mistério não é um enigma qualquer. Brás Cubas está morto e está contratando alguém para investigar quem foi o autor do assassinato. Sua missão, portanto, é sair às ruas, coletar pistas e tentar entender como tudo isso aconteceu.
Mas não é só isso: as circunstâncias do assassinato não são corriqueiras. De alguma forma, Brás Cubas nos prendeu em um loop temporal, permitindo que o investigador possa reviver inúmeras vezes o dia seguinte à morte do seu contratante.
Ainda que não se baseie diretamente em uma obra de Machado de Assis, o game invoca diversos outros personagens da literatura machadiana – e a solução funciona de forma brilhante.

A estratégia por trás da investigação
Com a premissa estabelecida, é hora de ir às ruas coletar pistas e conversar com possíveis testemunhas. Você precisa entrar em estabelecimentos comerciais, conversar com policiais, vendedores de jornais e pessoas próximas a Brás Cubas para entender o que aconteceu.
A mecâmica aqui é bastante simples: caminhe do ponto A ao ponto B, siga os diálogos e tome notas. Essas informações vão ajudar você a compor o perfil de cada personagem para tentar entender quem pode ser o possível culpado pelo crime.
A mecânica de loop temporal entra em cena no fim da noite. Ao dormir, você acorda “no dia seguinte” para reviver o mesmo dia, mas sem perder as informações que coletou. Aos poucos o quebra-cabeça vai sendo montado.
Ao final de cada dia você cai no Limbo. Lá, quem o aguarda é ele mesmo, Brás Cubas. Seu falecido patrão avalia junto com você as pistas e sugere os próximos passos da investigação.

Uma maneira inteligente de concatenar pistas
A fórmula encontrada pela Mother Gaia para fazer o game de estratégia e investigação funcionar é ótima. Ainda que em alguns momentos a ação soe repetitiva, afinal será preciso entrevistar um mesmo suspeito várias vezes, ainda assim o fato de que há informações adicionais a cada ciclo transmite a sensação de que a história caminha.
Confesso, que o gênero de jogos de investigação “aponte e clique”, com essa estrutura mais simplificada, não está entre os meus preferidos. Entretanto, ainda assim o modelo não me pareceu cansativo e em nenhum momento tive vontade de “acelerar a história” ou “encerrá-la” de alguma forma.
Contudo, em A Investigação Póstuma, a paciência é uma virtude. Além de repetir ações, em muitos momentos você vai se deparar com puzzles não tão óbvios para serem resolvidos. A dica é tentar deduzir o que é dito a partir das poucas informações que você tem. Nada é entregue a esmo e, particularmente, achei essa abordagem do desafio mais estimulante.

A escolha certa do visual
Outro acerto da Mother Gaia Studios na construção do game é o visual. O estúdio optou por um visual de cinema noir, característico das obras de policial e mistério do cinema entre o fim da década de 1930 e início da década de 1950.
Por essa razão, o game é todo em preto e branco, com traços cartunescos. Há um forte uso de contrastes, com linhas limpas e bem definidas. Os rostos têm formas angulares e exageradas, os olhos são expressivos e simplificados, resultando em uma caricatura elegante.
De certa forma, o estilo me lembrou o de games como The Wolf Among Us ou a animação Archer, disponível na Netflix. A música ambiente, um estilo de jazz minimalista, dá uma toque de elegância no resultado final.





Vale a pena?
Com cerca de 10 a 12 horas de gameplay e custando apenas R$ 49,99, A Investigação Póstuma é certamente um game que merece a minha recomendação. Não se trata apenas de fazer uma deferência pelo fato de esse ser um jogo brasileiro e que se utiliza tão bem de um elemento marcante da nossa cultura. Tenho certeza que internacionalmente o game também vai encontrar seus defensores.
A maior barreira aqui é o ritmo mais lento, característico dos jogos aponte e clique. Fosse nos anos 1990, por exemplo, um jogo como esse no PC teria tudo para se tornar um clássico instantâneo. Porém, mesmo para quem não está acostumado, o jogo é uma ótima “quebra” para se fazer uma pausa entre um AAA e outro.
A utilização da obra de Machado de Assis como base para o enredo é certamente uma ideia e tanto. Torço não só pelo sucesso do game, mas para que ele também sirva para abrir ainda mais portas para que tenhamos muitos outros jogos nacionais dos mais variados gêneros.
Ótima utilização dos personagens do universo de Machado de Assis
Roteiro inteligente, com mecânicas eficientes
Nível de desafio bastante equilibrado
Visual e trilha sonora são marcantes
Excesso de repetições do loop, especialmente no início, pode afastar jogadores pouco acostumados com o gênero
A Investigação Póstuma foi gentilmente cedido pela Critical Leap, em versão para PC, para a realização desta análise.
